quinta-feira, 7 de junho de 2012

FECHADO

Chegamos perto de uma rocha sentamos-nos e inclinamos-nos para o riacho e vemos o nosso reflexo. Perfeito, singular e desconsertado. Tocamos com os dedos na água e emergimos no interior como quando essa mesma água desagua na foz, e o nosso reflexo continua lá, desvanecido tal como o vento que sopra. Fechamos os olhos e concentramos-nos nas sensações que a água nos faz sentir e no fundo essas sensações, estão fechadas e abertas dentro de nós, pois podemos criar lugares inabitáveis com as nossas preferências. Mas o nosso reflexo continua lá, e sempre continuará pois está preso à água. A suavidade é um aspecto que podemos proporcionar ao que criamos mas por vezes temos um rumo bastante modificado, mudamos de rota, corremos contra a maré, e aí temos de nos deixar ir até encontrarmos uma nova corrente que nos guie para trás para corrigirmos os erros, só que muitas vezes não temos esse tipo de oportunidade. 
Cercados, amarrados, acorrentados, fechados, estão os nossos sentimentos mais secretos e no fim querer libertá-los não é o mesmo que conseguir deixá-los partir porque há sempre no fundo uma réstia de posse amigável até mesmo com o mais ruim, porque no fim de contas o que somos nós sem essas aprendizagens?  Alguns temas são difíceis de derrubar e há alturas que parece que queremos derrubar uma parede com um lápis, e em todas as vezes o lápis quebra, quebra, quebra, e consequentemente parte-se em pequenas peças de madeira e carvão, um conjunto de utensílios que há dias que nos fazem sentir melhor, inclusive até fazer esquecer-nos de derrubar a parede, mas à vezes que em vez de queremos derrubá-la podemos simplesmente pintá-la e decorá-la com o que está fechado em nós e assim criar-mos uma tela grande do que nunca quisemos deixar libertar, com medo de certos conhecimentos, sensações, pensamentos e criações fugissem sem deixar pelo menos um lápis de carvão para decorar!


Encarar quando estamos encurralados é como pintar quando estamos magoados. 

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